Terça-feira, 2 de Março de 2010

Jazz Transatlâtico, em estreia no CCB

 

 

Não é esta a primeira vez que a Orquestra Jazz de Matosinhos se encontrou em palco com formações instrumentais do campo da “música erudita”:  a experiência inicial aconteceu em 2002 e teve por parceiro o Remix Ensemble, para a recriação de uma versão de Sketches of Spain  (Miles Davis/Gil Evans);  e a segunda é bem mais recente  (2008),  constituindo a primeira colaboração com a Orquestra Nacional do Porto  (ver foto),  para a interpretação conjunta de composições de Duke Ellington e Rolf Liebermann.

 

Agora, em Jazz Transatlântico, produção conjunta do Centro Cultural de Belém  (Lisboa)  e da Casa da Música  (Porto),  que se saúda pela rentabilização em termos artísticos e de investimento de um projecto ambicioso e exigente  (em ambas as vertentes)  e assim tornando a audição de um repertório invulgar acessível a um público mais amplo, as mesmas duas orquestras uniram os seus esforços e qualidades para nos darem a ouvir obras já conhecidas ou outras em estreia mundial, o que é sempre mobilizador para o espectador.

 

Diga-se em jeito de intróito que as relações entre o jazz e a música erudita nunca foram “pacíficas”, no sentido de que tem sido mais aquilo que artificialmente os afasta do que aquilo que os une.  Mas este tão sublinhado e falado divórcio, algumas vezes atenuado por experiências bem conseguidas, não pode ser analisado com ligeireza e mereceria que nos debruçássemos sobre ele com mais delongas.

 

[Para não tornar este texto demasiado extenso, permito-me, aliás, chamar a eventual atenção de quem lê estas linhas para um outro escrito que, a propósito desta problemática, tive a oportunidade de alinhavar como texto de acompanhamento para o já referido primeiro concerto conjunto da OJM e da ONP e que pode ser encontrado e até descarregado aqui no site da Orquestra Jazz de Matosinhos]

 

Indo, assim, ao essencial das impressões que este novo contacto me suscitou, digamos sucintamente que o concerto realizado na passada sexta-feira 26 de Fevereiro, num Grande Auditório do CCB que merecia estar mais aconchegado de público, teve momentos muito diferenciados de fruição musical, em termos de interpretação e de exigência composicional.

 

Se, no primeiro aspecto, as qualidades de ambas as orquestras estiveram ao nível do que de melhor se lhes conhece  – sob a direcção maleável mas sempre eficazmente segura e competente do maestro belga Dirk Brossé –  já no segundo aspecto o interesse das obras tocadas suscitaram-me impressões bastante diversificadas.  Entre as mais conhecidas, sem dúvida que os Três Episódios da suite de dança On The Town, de Leonard Bernstein, pela orquestração brilhante e pelo carácter ao mesmo tempo tão próximo e enraizado na cultura popular norte-americana em geral e nos musicais da Broadway em particular, destacaram-se através da desenvoltura composicional e ao mesmo tempo por uma natural acessibilidade que os tornou abrangentes em relação ao público algo atípico que compunha o CCB.

 

Por outro lado, alguma desilusão me provocaram outras duas peças incluídas no programa por Dirk Brossé:  desde logo, uma composição sua, Principals, a qual, sem ponta de exagero da minha parte, não escapa a uma sucessão, mais ou menos articulada com ofício, de alguns “lugares comuns” próprios de dezenas de bandas sonoras compostas para o cinema ou para a televisão;  depois, um arranjo banalíssimo e pouco desenvolvido  (do próprio Brossé)  para Bluesette, essa deliciosa pequena peça em tempo de valsa de Toots Thielemans, que contou com solos improvisados a contento por Nick Marccione  (trompete)  e Carlos Azevedo  (piano).

 

Das peças que desconhecia ou eram até agora inéditas, Jazz Symphony, inicialmente composta em 1925 com a finalidade de ser tocada pela orquestra de Paul Whiteman pelo compositor norte-americano Georg Antheil  – que também muita música escreveu para Hollywood –  apresentava como é óbvio uma maior ambição da escrita mas a enorme distância de outras grandes peças de compositores do século XX que também se interessaram pelo jazz, como Milhaud, Strawinsky ou Ravel.  Além do mais, os ecos do mundo do jazz que se podem ouvir nesta curta sinfonia de Antheil  (reorquestrada em 1955)  derivam muito mais de um interesse superficial pelo lado “exótico” do jazz e não tanto de uma compreensão mais profunda e convicta desta tão específica linguagem musical.

 

Sem fazer comparações despropositadas ou desadequadas, o mesmo não se pode dizer das duas obras que, em estreia mundial, se puderam ouvir no referido concerto, saídas da pena de Ohad Talmor, jovem saxofonista e compositor suíço de origem israelita, hoje radicado nos EUA, e de Carlos Azevedo, outro jovem pianista e compositor do Porto, ambos fazendo carreira de assinalado valor nos dois domínios musicais, o jazz e a música erudita, como bem ficou comprovado nas suas composições intituladas respectivamente Layas, para piano, bateria e orquestras sinfónica e de jazz, e Crossfade, para as mesmas formações instrumentais e saxofonista-tenor solista.

 

 

Em termos composicionais, Layas soou-me, porventura, mais arrojada no plano harmónico e no permanente jogo interactivo das duas orquestras;  mas, precisamente, a deliberada menor distinção ou fusão entre elas, contribuiu para que o lado jazzístico da obra se diluisse de algum modo, ao mesmo tempo que me pareceu que Ohad Talmor não terá pretendido dar larga margem de manobra improvisativa aos solistas convidados.

 

É certo que, a espaços, a partitura deixava alguns momentos de improvisação “livre” a Jason Moran, demonstrando  (embora com resultados musicais algo minguados)  a justeza da escolha do notável pianista norte-americano mas deixando um pouco de água a crescer na boca;  esses eram, assim, momentos demasiado breves e, quando existiram, surgiam como que evocando os diálogos típicos do “concerto grosso”, mas sem que se sentisse um verdadeiro  (ou audível) contraste de linguagens entre os dois dispositivos orquestrais.

 

 

Do mesmo modo, um baterista tão extraordinário e polivalente como Dan Weiss, pareceu-me pouco aproveitado nas suas notáveis qualidades  (especialmente pela sua especialização na música hindú, que alegadamente influenciava toda a peça),  diluindo-se no tutti, quase ao nível da restante percussão do campo sinfónico e não criando praticamente nada que  (pelo swing obligatto)  não pudesse ter sido tocado por um percussionista desse campo.

 

 

Já a obra de Carlos Azevedo, embora quiçá menos “puxada” em termos harmónicos mas não menos exigente em termos orquestrais, resolveu de uma forma a meu ver amplamente conseguida esta tão especial e delicada coabitação dos mundos sinfónico e jazzístico.

 

Iniciada de forma corajosa e intrigante por um longo e improvisado solo absoluto de André Fernandes  (guitarra),  Crossfade deixa a seu tempo as cordas serem penetradas na região aguda por aquele solo, em mixing muito lento, acabando por substituí-lo.


Estava dada a tónica de como a obra fora concebida.  Precisamente, este princípio da passagem subtil de uma para outra orquestra, de um para outro domínio musical, do tutti formado pelas duas orquestras para os solistas que emergiam de uma e de outra, com relevo natural para o solista principal  (o saxofonista Chris Cheek),  não só se revelou inteiramente coerente com o título da peça como afastou resolutamente o risco de uma dicotomia burocrática e forçada entre o sinfónico e o jazzístico.

 

Por outras palavras, a argúcia da trabalhosa (e trabalhada)  instrumentação de Carlos Azevedo contribuiu em alto grau para que ambas as orquestras, não perdendo posturas e funções sónicas próprias, se fundissem afinal num organismo único, cuja unidade lhe era transmitida pelo dialéctico labor da composição  (bem assimilada pela inteligente e sensível direcção da orquestra),  jamais deixando a atitude sinfónica ou jazzística desse acto de compor fazer esquecer ou atenuar as respectivas identidades e matrizes.

 

Neste âmbito, o drive e a persuasão de John Riley  (bateria),  que a espaços se fazia notar com fragor, a par da espantosa inteligência e sensibilidade musical de Chris Cheek  – cujos belíssismos solos parcialmente pré-escritos pelo compositor e admiravelmente prosseguidos e longamente desenvolvidos em improvisações sujeitas a mote, constituiram um elemento jazzístico altamente valorativo da própria peça –  tornaram ainda mais claro o terreno musical que pisávamos, com momentos de arrebatamento orquestral e de movimentação harmónica que ajudaram a marcar a diferença.

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Declaração de interesses: embora não seja o caso deste concerto, em particular, o autor desta crónica é colaborador habitual em projectos da Orquestra Jazz de Matosinhos.

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Actualização:  já está online o nº. de Março de Jazz 6/4!
 
 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:06
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